Elvis: O homem por detrás do mito

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Ficha Técnica:

Páginas: 180

Tamanho: 19cm (Altura) x 13cm (Largura)

Miolo: Preto e branco com algumas fotos coloridas.

Lançamento: 2007

Valor: R$ 35,00

(já incluso os correios)

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O maior dos presentes

Por: Shantay Parrish-Violette

A minha mãe e eu decidimos ir a Memphis na semana de 5 a 12 de agosto de 1977, antes dela voltar de suas férias e eu da escola. Paramos em frente a Graceland assim que chegamos a Memphis para uma pequena conversa com o “tio” Vester e Fred Stoll, responsáveis pela guarda naquele dia.

Fizemos o check-in no hotel Ramada Inn, que na época ainda era na Elvis Presley Boulevard, e voltamos para Graceland à noite, para o caso de Elvis decidir sair um pouco. Conversamos com Harold Lloyd e alguns fãs que estavam no portão durante quase toda noite. Já era madrugada quando nos demos conta que Elvis não sairia da mansão.

Voltamos para o hotel, dormimos algumas horas, nadamos na piscina e depois voltamos para outra noite em Graceland. Assim que escureceu, Charlie Hogde saiu pelo portão conduzindo o MG verde que Elvis tinha oferecido a Ginger Alden. Conversamos um pouco com ele e perguntamos se Elvis sairia para algum lugar naquela noite.

Como Charlie não respondeu a essa pergunta, decidimos ficar mais um tempo ali. Eu estava no meio da rua em frente a casa dos guardas, quando de repente ouvi alguém gritar: “Sai, sai daí, depressa, sai daí”. Às vezes eu sou um pouco lenta (principalmente quando estou em Memphis), mas eu nem sequer tinha me afastado dois passos, quando levantei os olhos e vi um enorme carro preto brilhante quase a minhafrente. Não estou brincando, dei mais um passo para atrás e Elvis passou por mim com o carro de tal forma que pude sentir a deslocação do ar provocada pelo carro.

Quem conhece Elvis, sabe que ele dirigia como um louco, mas o Stutz foi feito para a velocidade e aquela era a sua rua, por isso, ele dirigia nela como se fosse tudo dele. Ficamos observando o carro subir o caminho até a mansão, onde Elvis estacionou próximo a entrada e desapareceu dentro da mansão. Não tenho certeza onde ele tinha estado naquela noite, mas deve ter saído mais cedo do que usual ou utilizado o portão dos fundos antes de nós chegarmos.

Na noite seguinte, decidimos tentar a nossa sorte nos portões dos fundos, junto à igreja (onde agora fica o escritório da EPE), para ver se conseguíamos ver Elvis sair por ali. Sentamos ali e chegamos até pensar em pular o muro e chegar na mansão sem ser apanhadas. Decidimos que não. Ninguém entrou ou saiu naquela noite, por isso, às 7 e meia da manhã seguinte, fomos embora de novo e juramos que iríamos ver Elvis na próxima noite de qualquer forma.

A minha mãe e eu regressamos a Graceland às 6 e meia da tarde, quando percebemos que tínhamos esquecido o lanche para comer de noite. Depois que Harold entrou de serviço na guarda dos portões, minha mãe perguntou-lhe se podia sair dali por uns instantes e se ele tomava conta de sua “menina”. Nesta altura, Harold já era como nosso irmão e não se preocupou em tomar conta de mim enquanto a minha mãe foi às compras. A última coisa que ela me disse antes de ir embora, foi, “E agora quando eu voltar, não me diga que eu perdi de ver Elvis...”

Mas, pouco mais de 10 minutos depois que minha mãe tinha saído, a porta da frente de Graceland se abre e Elvis sai. Eu pensei que fosse desmaiar. Eu e uma amiga de Michigan que tínhamos encontrado quando nos dirigíamos para os portões, ficamos em estado de choque, olhando paraElvis, vestido com um pijama de seda branco em um robe azul, sentando-se no banco próximo a porta para ler um jornal.

Eu não parava de pensar em minha mãe, “Ela não vai acreditar quando eu lhe contar”. A Ginger também saiu e sentou ao lado dele durante uns 10 minutos, quando os dois se levantaram e entraram na casa. Nesse ínterim, já tinha juntado várias pessoas junto ao portão e estávamos todos vibrando por termos visto Elvis.

A minha mãe voltou pouco tempo depois e quando lhe contamos o que tinha acontecido, ela pensou que fosse brincadeira. Senti tanta pena dela, mas pelo menos, uma de nós tinha visto aquele homem lindíssimo.

Mais tarde, Charlie veio até os portões e começou a contar piadas por um bom tempo. Ele era tão engraçado. Ele juntamente com o Harold, fizeram companhia com os fãs durante toda a madrugada. Quando clareou o dia, já sabíamos que Elvis não sairia de Graceland, por isso, retornamos ao nosso hotel.

No dia 09 de agosto, visitamos o túmulo de Gladys e alguns marcos históricos de Memphis. Era tão diferente do que se pode ver hoje. Não se encontrava uma única coisa com o nome de Elvis, exceto as placas nas ruas indicando a Elvis Presley Boulevard. Fomos também a Tupelo e voltamos a tempo de reencontrar os fãs para outra noite em frente aos portões da mansão.

Ainda não tinha anoitecido completamente quando ouvimos uma moto na estrada perto da igreja, e vimos Elvis desaparecer na Elvis Presley Boulevard. As pessoas que dizem que Elvis não ia para lugar algum sozinho, não estavam ali naquela noite, por que eu vi-o sair sem ninguém atrás dele. Nós vimos apenas de relance, mas parecia que ele levava flores na parte de trás da moto. Naquela noite não o vimos voltar, até por que tínhamos ido comer e jogar pinball com Charlie Hogde. No dia seguinte, voltamos ao túmulo de Gladys e lá estavam as flores que tínhamos visto na garupa da moto.

Não tinha nenhum cartão, por isso, tínhamos certeza que tinha sido Elvis que as colocara ali. Na tarde do dia 10, já sabíamos que voltaríamos para casa em breve, e não estávamos conformadas em sair de Graceland sem uma foto ou autógrafo de Elvis como recordação. Mas Deus devia saber o que estávamospensando, por que o destino acabou por nos dar quatro lenços trazidos diretamente das mãos de Elvis. A minha mãe tinha recebido um lenço de Elvis em Cincinnati, no dia 25 de junho, que lhe foi roubado quando várias fãs se amontoaram junto ao palco. Contaram isto a Elvis e ele quis que cada uma de nós ficasse com dois lenços, para substituir o que tinha sido roubado. Não foi a coisa mais amorosa que ele poderia ter feito?

Nós estávamos nas nuvens e decidimos passar pela casa de Vernon pai de Elvis - na Dolan Street, vizinha de Graceland, uma vez que ainda era cedo para ir até os portões. A minha mãe sabia que eu era envergonhada, mas me convenceu ir até a porta da casa e tocar a campainha.

Tínhamos a certeza que a empregada nos mandaria embora. Ficamos chocadas quando foi o próprio Vernon que abriu a porta. Ele foi amoroso e saiu por uns minutos para falar conosco, com um guardanapo na mão, pois acabara de comer um sanduíche. Ele posou comigo para algumas fotos em frente a garagem e desculpou-se dizendo que precisava entrar.

Passamos o resto da noite deitadas perto dos portões de Graceland olhando estrelas, impressionadas com a nossa sorte. Tínhamos visto Elvis por três vezes, conhecemos o pai dele, recebemos quatro lenços e fizemos amigos muitos especiais. Sabíamos que não poderia acontecer nada melhor. Ou será que podia?

O dia 11 de agosto foi passado quase da mesmaforma. Nadamos na piscina do hotel, fizemos compras e nos preparemos para passar a última noite em frente a Graceland. Estávamos um pouco tristes, mas já sabíamos que assistiríamos um show dele na semana seguinte. Nesse dia, minha mãe comprou um vestido para mim, para que a última vez que eu visse Elvis, estivesse vestindo algo comprado na cidade dele.

A noite começou com o George, eletricista de Elvis, nos dando algumas lâmpadas que ele tinha acabado de substituir dentro da mansão e no pátio. Mostrou-nos o relógio que Elvis tinha lhe dado e contou-nos algumas histórias engraçadas antes de ir embora por volta das 11 horas da noite.

Ficamos ali escutando música, enquanto esperávamos para ver se Elvis sairia naquela noite. Charlie veio até o portão e nos disse que Elvis poderia sair para ir ao cinema. Ele nos falou se conseguíssemos estar no cinema na hora em que ele chegasse lá, Elvis nos deixaria entrar, desde que nos comportasse.  Caramba, eu seria capaz de pôr algodão nos ouvidos e amordaçar minha boca se isso significasse ficar frente a frente com Elvis.

Às 3 e meia da madrugada do dia 12, o Stutz saiu de Graceland e entrou na Highway 51 em direção ao cinema. Minha mãe seguiu logo atrás de Elvis até pararmos num sinal vermelho num dos cruzamentos. Perdemos muito tempo e quando chegamos ao local, todos já tinham entrado e as portas estavam fechadas.

Apesar do desapontamento, sabíamos que Elvis teria que voltar a Graceland. Então, tiramos algumas fotos do carro de Elvis e voltamos aos portões. Minha mãe estacionou do outro lado da rua depois de eu sair do carro e disse que me avisaria quando o carro de Elvis estivesse chegando. Por volta das cinco horas, ouvi o som familiar da buzina do carro de minha mãe e do carro de Elvis vindo emseguida. Meu coração começou a bater descontroladamente, mas eu sabia que esta seria minha última oportunidade de tirar uma foto dele.

Preparei-me a medida que Elvis se aproximava de onde estava. Ele diminuiu a velocidade e me acenou, entrando pelos portões e estacionando o carro em frente a mansão. Os meus joelhos cederam ao entusiasmo, enquanto a minha mãe atravessa a rua para se certificar que eu tinha tirado uma foto. Meio a chorar e rir, disse-lhe que ele tinha diminuído a velocidade perto de mim e que eu tinha certeza que tinha conseguido uma boa foto.

Ficamos cerca de uma hora tentando nos acalmar, e trocando endereços com outros fãs, sabendo que partiríamos de Memphis poucas horas depois. Estávamos prontas para ir embora ao final da tarde, quando eu pedi para vermos Graceland pela última vez.

 

O trânsito era intenso, mas assim que nos aproximamos, ficamos chocadas ao ver Elvis, Lisa Marie e mais alguém no carrinho de golfe no jardim em frente a mansão. A semana que tinha acabado, só podia ter sido um sonho. “Ninguém pode ter tanta sorte”, pensava eu.

A medida que nos afastávamos, uma lágrima correu pela minha face, com um pouco de tristeza, mas também com a alegria daquela semana em que vi Elvis e vi que ele estava saudável e feliz.

Voltamos a Ohio na manhã do dia 14 de agosto e a vida voltou ao normal. A minha mãe ajudou meu irmão a mudar de casa no dia 16 e estava voltando pra casa quando soube da notícia. Ela sabia que não podia ser verdade, mas também sabia que tinha de ir para casa falar comigo.

Enquanto ela esteve fora, o telefone tocou e fiquei sabendo da noticia. Não, não o meu Elvis, era outro Elvis que tinha morrido. Eu tinha telefonado a todos os meus amigos dizendo que ele estava ótimo. Estavam enganados, todos enganados. Esta é a última coisa que lembro ter pensado.

Quando minha mãe chegou, eu estava andando às voltas nomeio do pátio completamente molhada da chuva que caia. Eu, como todos os fãs, estava completamente perdida. As semanas seguintes continuaram distantes, mas no inicio de outubro, meus pais mandaram revelar alguns filmes de fotografias, sem saberem onde e quando tinham sido tiradas. Eu tinha me esquecido do filme da máquina de quando estivemos em Memphis após a trágica notícia. Eu tinha 16 anos e o que tinha sido o melhor verão da minha vida, tinha acabado num pesadelo do qual eu pensei que nunca acordaria.

Eu não conseguia comer, dormir e chorei até não ter mais lágrimas. Eu não tinha vontade nem de ir a escola. Foi num desses dias que o carteiro trouxe o remendo que começou a juntar o meu coração despedaçado. Chegou um pacote da loja fotográfica e eu decidi abrir. Eu não estava preparada para o que eu veria. Era o último e mais precioso presente de Elvis para mim e um sinal de que a vida continua. Era a foto que eu tinha tirado na madrugada do dia 12 de agosto, quatro dias antes dele morrer.

Lá estava ele, dizendo adeus, como se soubesse o que nos esperava. Assim era Elvis. Deixou-nos com algo para se agarrar, para acariciar, para amar. O último presente que ele me deu, foi para mostrar que ele não me deixou realmente...